O que todo mecânico precisa saber
1. Introdução
Na manutenção aeronáutica, o termo workaround significa uma solução provisória e controlada para manter a aeronave operando enquanto a correção definitiva não é realizada. Diferente de improviso, o workaround precisa estar previsto, aprovado e documentado em normas, manuais e listas técnicas. Ele existe para garantir segurança operacional, confiabilidade e continuidade das operações sem violar requisitos regulatórios.
Quando corretamente aplicado, ele é uma ferramenta legítima.
Quando mal aplicado, pode se transformar em fonte de risco operacional.
2. O que caracteriza um workaround?
Um workaround aeronáutico deve atender às seguintes condições:
✔ Não compromete a segurança de voo
✔ Está autorizado por documentação técnica
✔ Possui limitações operacionais claras
✔ É temporário e rastreável
✔ Possui prazo ou condição para encerramento
Documentos mais comuns:
- MEL – Minimum Equipment List
- CDL – Configuration Deviation List
- boletins de serviço
- ordens técnicas
- manuais de manutenção
- aprovações de engenharia
Improvisos fora dessas bases não são workaround — são desvios de manutenção.
3. Exemplos típicos na prática
🔧 Exemplo 1 — Item não essencial inoperante
Um sistema secundário apresenta falha.
Workaround correto
- desativação conforme manual
- anotação técnica
- aplicação das restrições da MEL
- prazos respeitados
🔧 Exemplo 2 — Componente com desgaste monitorado
O componente ainda está dentro de limite operacional.
Workaround correto
- inspeções periódicas
- parâmetros definidos
- controle de tempo
- planejamento da troca definitiva
4. Workaround não é “gambiarra”
A diferença é crítica:
| Gambiarra | Workaround |
|---|---|
| Improviso | Procedimento autorizado |
| Sem base técnica | Baseado em norma |
| Risco desconhecido | Risco avaliado |
| Sem registro | Rastreável |
| Irregular | Regulamentado |
Na aviação, disciplina técnica é segurança.
5. Quando o workaround vira risco: lições aprendidas
A história da aviação mostra que o problema não é o conceito — é o mau uso dele. Veja alguns casos em que decisões relacionadas a workaround, adiamentos ou flexibilizações contribuíram para eventos sérios.
Alaska Airlines 261 (2000)
O estabilizador horizontal sofreu falha catastrófica após desgaste excessivo em um componente crítico.
Investigações mostraram alterações em políticas de manutenção e prorrogações de atividades, que na prática funcionaram como “contornos operacionais”.
✔ Lição técnica
- intervalos de manutenção não podem ser flexibilizados sem base de engenharia
- economia e pressão operacional nunca substituem critério técnico
Uso inadequado de MEL/CDL em diversas operações pelo mundo
Há registros de eventos em que:
- o deferimento inicial estava correto
- mas as restrições não foram cumpridas
- ou o prazo limite foi excedido
- ou a falha deixou de ser monitorada
Isso transforma um workaround legítimo em não-conformidade operacional.
✔ Lição técnica
- MEL ≠ autorização irrestrita
- MEL exige disciplina de cumprimento
Soluções improvisadas em manutenção
Existem também casos em que mecânicos criaram soluções não aprovadas para “quebrar o galho”:
- bloqueios improvisados
- conexões temporárias não previstas
- materiais inadequados
Mesmo com boa intenção, isso fere a filosofia aeronáutica de segurança.
✔ Lição técnica
- só vale o que está aprovado
- improviso cria risco oculto

6. O que normalmente dá errado?
Padrões recorrentes:
- Workaround vira permanente
- Falta de registro técnico
- Interpretação incompleta da MEL
- Comunicação deficiente entre setores
- Pressão operacional
- Cultura de “entregar a qualquer custo”
Ou seja: o fator humano é tão importante quanto o técnico.
7. O papel do mecânico
O mecânico é guardião da segurança técnica.
Suas responsabilidades incluem:
✔ verificar documentação correta
✔ seguir rigorosamente o procedimento
✔ registrar cada passo
✔ comunicar limitações
✔ recusar improvisos
✔ reportar anomalias
Mecânicos que questionam e analisam evitam acidentes.
8. Boas práticas recomendadas
- utilize sempre a revisão atualizada do manual
- evite “atalhos”
- padronize registros
- coordene com engenharia e operação
- trate workaround como temporário
- priorize a cultura de segurança
9. Cultura, CRM e segurança
Um bom workaround existe quando:
- mecânica
- despacho
- engenharia
- pilotos
- inspeção
se comunicam claramente.
Dúvidas devem gerar consulta técnica — não improviso.
10. Conclusão
O workaround é parte legítima da aviação moderna.
Ele permite que aeronaves permaneçam operando com segurança — desde que usado corretamente.
Quando mal aplicado, pode:
⚠️ reduzir margens de segurança
⚠️ criar risco oculto
⚠️ comprometer a confiabilidade
Por isso, disciplina técnica, documentação e comunicação são indispensáveis.
O mecânico aeronáutico tem papel central nesse processo — e seu julgamento profissional protege vidas e a reputação do sistema aeronáutico.









