O que está acontecendo nos EUA e por que o Brasil pode seguir o mesmo caminho
Nos últimos anos, um movimento silencioso começou a chamar a atenção no setor aeronáutico: mecânicos de aeronaves migrando para a mecânica automotiva, especialmente nos Estados Unidos. O fenômeno, que à primeira vista pode parecer improvável, tem fundamentos econômicos, regulatórios e operacionais muito claros — e levanta um alerta importante para o mercado brasileiro.
Este artigo analisa por que isso está acontecendo nos EUA e se o Brasil corre o risco de seguir a mesma trajetória.
O cenário nos Estados Unidos: quando a conta não fecha
Nos EUA, o mecânico aeronáutico certificado pela FAA (A&P Mechanic) exerce uma das funções mais críticas da aviação. Ele assina a liberação da aeronave para retorno ao serviço, assumindo responsabilidade civil e criminal direta.
O problema é que, na prática, essa responsabilidade nem sempre é acompanhada por uma remuneração proporcional.
Em muitos estados americanos, mecânicos aeronáuticos recebem entre US$ 28 e US$ 40 por hora, enquanto mecânicos automotivos especializados — especialmente em veículos elétricos, diesel pesado e diagnóstico eletrônico avançado — já ultrapassam facilmente essa faixa salarial, com menos pressão regulatória e melhor previsibilidade de jornada.
Além disso, a rotina da aviação inclui:
- Turnos noturnos
- Trabalho em finais de semana e feriados
- Plantões AOG
- Alto nível de estresse operacional
Não por acaso, tornou-se comum ouvir de ex-mecânicos aeronáuticos a frase:
“I earn more and I sleep at night.”
Transferência de habilidades: a ponte entre avião e automóvel
Outro fator decisivo é a facilidade de migração técnica. Mecânicos aeronáuticos já possuem:
- Forte base em mecânica e eletricidade
- Disciplina de manutenção
- Capacidade de leitura e interpretação técnica
- Mentalidade voltada à segurança e diagnóstico sistemático
Essas competências são altamente valorizadas no setor automotivo moderno, especialmente com a explosão dos veículos elétricos (EVs) nos EUA. Diferentemente da aviação, o setor automotivo não exige uma licença federal equivalente à da FAA, reduzindo drasticamente a burocracia e o risco jurídico pessoal.
E o Brasil? O mesmo fenômeno pode acontecer aqui?
A resposta curta é: sim, pode — e já existem sinais iniciais disso.
A resposta completa é mais complexa.
No Brasil, o mecânico aeronáutico com CHT e habilitação também assume grande responsabilidade técnica e regulatória. No entanto, a remuneração média ainda gira, em muitos casos, entre R$ 3.500 e R$ 7.000, valores que frequentemente não acompanham o nível de exigência, pressão operacional e carga administrativa imposta pela regulamentação.
Ao mesmo tempo, o setor automotivo brasileiro tem absorvido profissionais qualificados para áreas como:
- Injeção eletrônica avançada
- Diesel pesado
- Manutenção industrial leve
- Veículos híbridos e elétricos
Com jornadas mais previsíveis e maior possibilidade de empreendedorismo, o automotivo se torna uma alternativa real para quem busca equilíbrio entre renda e qualidade de vida.
Onde o risco é maior no Brasil
Diferentemente dos EUA, o Brasil não deve enfrentar um êxodo em massa imediato. No entanto, o risco é maior em segmentos específicos:
- Aviação geral
- Oficinas pequenas
- Ambientes com salários estagnados
- Falta de plano de carreira técnico
Mecânicos de linha aérea tendem a permanecer mais tempo no setor, enquanto profissionais da aviação geral são os mais suscetíveis à migração.
Um alerta para o futuro da manutenção aeronáutica
A escassez de mecânicos qualificados já é uma realidade global. Se o setor aeronáutico brasileiro não avançar em:
- Valorização salarial
- Melhoria das condições de trabalho
- Planos de progressão técnica
o país pode repetir, em menor escala e de forma gradual, o mesmo fenômeno observado nos Estados Unidos.
Conclusão
O movimento de migração de mecânicos aeronáuticos para a mecânica automotiva não é falta de vocação, nem perda de paixão pela aviação. É, na maioria das vezes, uma decisão racional diante de um desequilíbrio entre responsabilidade, remuneração e qualidade de vida.
O desafio está lançado: reter mão de obra qualificada exigirá mais do que discurso sobre paixão por aviões. Exigirá estrutura, reconhecimento e evolução do setor.
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